Núcleo de Gestalt Terapia Integrada
 

“CISNE NEGRO”: uma percepção gestáltica

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Por Alina Purvinis, gestalt-terapeuta (CRP: 06/1828-1)

Minha intenção aqui é fazer um breve comentário sobre o filme, sugerindo alguns significados a partir dos elementos que se destacaram na minha percepção, tendo como pano de fundo a teoria da Gestalt.
O filme tem início com um sonho de Nina, a protagonista, no qual ela aparece dançando o balé “Lago dos Cisnes”, no papel do Cisne Branco. De repente aparece o Cisne Negro, os dois dançam como se fosse um embate, uma luta, e em seguida o Cisne Negro desaparece; o Cisne Branco parece ter vencido a luta. Ao despertar, Nina está bem humorada e relata o sonho para a mãe. Logo veio à minha mente que neste sonho aparecia uma polaridade , “cisne branco”x “cisne negro”.Na Gestalt-terapia, trabalhamos muito com polaridades: são aspectos fragmentados do self,que precisam ser trazidos para a awareness e acolhidos, com direito a se expressarem plenamente, para que possam ser integrados. Muitas vezes, o pólo que está fora da awareness aparece no sonho, sendo este, portanto, “um caminho para a integração” (Fritz Perls)
Nina está identificada com o Cisne Branco; o professor diz: “Se fosse para dançar só o Cisne Branco, eu não teria dúvida, escolheria você. Essa parte sua se constituiu a partir das introjeções que vieram principalmente da mãe, que é solitária e se dedica integralmente à única filha ( o pai não aparece). Algumas das mensagens que a mãe comunica a Nina, provavelmente desde muito cedo, de maneira verbal ou não verbal, poderiam ser: “Você é uma menina doce e meiga”, “Você não deve jamais me frustrar, deve ser submissa, passiva e obediente”, “Pessoas desconhecidas são perigosas, fique só com a mamãe”,”Desconfie dos homens, eles são uma ameaça, vão abusar de você, te explorar e te abandonar”, “Seja pura, virginal”, “Você é fraca, você não vai conseguir”, “Você pode brilhar, mas apenas num papel secundário, você não pode me superar”, “Você é culpada pelo meu fracasso, pois abandonei minha carreira para me dedicar a você.”
A partir dessas mensagens (que Nina engoliu sem mastigar), ela desenvolveu uma imagem idealizada, um ideal de perfeição, que exclui a agressividade e a sensualidade. Ela se identifica com o papel de bailarina (quando um rapaz no bar pergunta quem é ela, responde que é uma bailarina, não diz o seu nome) e se esforça ao máximo para se tornar a bailarina perfeita, fazendo exercícios até se machucar, tentando ultrapassar os seus limites para obter o papel principal, de Rainha Cisne. Submete-se ao seu “opressor interno’, que também é projetado no professor e que se manifesta principalmente em suas exigências perfeccionistas.
A mãe quer continuar em confluência com a filha, como se ela fosse ainda o seu bebê, e invade constantemente suas fronteiras de contato: quando Nina se recusa a comer o bolo que a mãe havia comprado (“nosso preferido”), ela fica furiosa e ameaça jogá-lo no lixo. Nina recua , se submete e lambe o dedo da mãe (“Você vai ter que me engolir”).A mãe entra no quarto da filha sem bater, entra no banheiro, telefona constantemente, examina seu corpo. Nina é controlada e invadida pela mãe o tempo todo e não consegue colocar limites para ela.
Para obter o papel da Rainha Cisne, Nina precisa ser capaz de dançar também o Cisne Negro. Para isso, diz o professor, ela precisa se soltar, se entregar. Ele diz a ela para se masturbar, ela tenta, mas não tem a privacidade necessária para isso e também tem muito medo de perder o controle. Como agradar o professor e a mãe ao mesmo tempo? Como ser o bebê, a menina doce, pura, passiva, submissa, a “filhinha da mamãe”, e, ao mesmo tempo, ser intensa, forte, agressiva e sensual? Esse conflito gera um impasse para Nina.
Ela reage à provocação do professor, que a beija, com uma mordida, e por conta disso, acaba sendo escolhida para o papel principal. Conseguiu liberar um pouco a sua agressividade, que geralmente é retrofletida (ela tem sentimentos de culpa e se fere, coçando a pele das costas até sangrar e também machuca os pés exagerando nos exercícios). Aliás, não é à toa que ela tem problemas na pele: a pele é a principal fronteira de contato corporal, a que define os contornos da nossa individualidade. O que está dentro da pele é o eu, o que está fora da pele é o não-eu.
Nina não tem uma fronteira de contato clara e definida – ela não desenvolveu a sua individualidade, não se separou da mãe controladora, possessiva e super protetora. Para dançar tão bem o Cisne Negro quanto o Cisne Branco, ela precisa romper as couraças, usar a sua energia agressiva para colocar limites e se auto-afirmar, entregar-se ao fluxo da energia e chegar à explosão do orgasmo, superando o impasse. Mas, para isso, ela precisa se separar da mãe e superá-la, o que gera intensa angústia e culpa. A figura da bailarina mais velha, a Rainha Cisne que está sendo dispensada e que ela irá substituir ( a qual está cheia de ódio, ressentida, e que tenta o suicídio, ficando toda mutilada), evoca em Nina sentimentos de culpa, muito embora o professor diga que o acidente não tem nada a ver com ela. Na verdade, os sentimentos de Nina em relação a essa bailarina tem a ver com a gestalt aberta da relação com sua própria mãe
Lily é outra bailarina que se aproxima de Nina e ao mesmo tempo é sua rival. Ela é de certa forma a antítese de Nina: rebelde, transgressora, sensual, “liberada” e Nina projeta nela o seu lado “sombrio”, os aspectos desconhecidos e ameaçadores do seu self. Lily desperta em Nina sentimentos ambivalentes: atração,inveja,medo e hostilidade.Ela estimula Nina a usar drogas para “se soltar e viver um pouco.”O uso das drogas pode ter contribuído para a fragmentação total de um self já fraco e pouco integrado, bem como o desafio extremo de dançar o Cisne Negro.
Nina começa a não conseguir mais diferenciar fantasia e realidade. Não sabe se teve uma relação sexual com Lily ou se foi um sonho. O lado sombrio (“sombra” é um conceito de Jung) começa a invadi-la e dominá-la. Ela chega a arrancar uma peninha preta que está brotando da pele de suas costas, e fica aterrorizada. Neste ponto, lembrei-me de um livro famoso de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro”, no qual o médico se transforma no monstro e, para destruir o monstro, acaba se matando. De certa maneira, é o que acontece com Nina. Durante o surto psicótico, ela luta com Lily e a ataca, ferindo-a gravemente. Logo em seguida, beija ferozmente o professor. Ao externalizar sua agressividade e sua sexualidade, consegue dançar o Cisne Negro magistralmente.
Depois, é a entrega final, a entrega à morte (porque na verdade ela tinha ferido a si própria e não à rival), já que não tem auto-apoio suficiente para sustentar os dois pólos e integrá-los. Essa entrega significa atingir o ideal de perfeição, agradar o professor e o público e, ao mesmo tempo, a vingança contra a mãe, que está na platéia assistindo tudo. É como se ela dissesse: “Veja, mamãe, fui perfeita, tive o sucesso que você nunca conseguiu – mas você não vai me possuir mais, estou indo embora, essa é a minha vingança, estou me separando de você!” A vingança que se voltou contra ela mesma (novamente a retroflexão), pois não houve ninguém no seu campo de relações que pudesse verdadeiramente apoiar o seu processo de crescimento emocional, apenas pessoas extremamente narcisistas ( a mãe e o professor) que a colocaram na posição de objeto , de instrumento para a satisfação de seus próprios desejos, e a quem ela não teve estrutura para resistir e afirmar sua individualidade.Restou a fuga ( para a psicose e para a morte).
Vendo esse resultado, apesar de se tratar de uma obra de ficção, refleti um pouco sobre os perigos de tentar romper as couraças de um indivíduo à força. Às vezes uma pessoa faz atos extraordinários só para agradar o terapeuta ou um “outro significativo”, e depois não sustenta, podendo entrar em colapso ou no mínimo baixando sua auto-estima. Daí a importância de não “apressar o rio” e trabalhar muito na construção do auto-apoio, bem como no fortalecimento das fronteiras de contato da individualidade e na utilização da energia agressiva a favor do self, pois só a partir dessa base sólida é que os aspectos sombrios podem ser reconhecidos, aceitos e finalmente integrados, levando à constituição de uma pessoa mais madura e mais plena.

 
 
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